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Tamborim

Informação e entretenimento. Colabore com a manutenção do Blog doando para a conta 0014675-0 Agência 3008. Caixa Econômica Federal.

Tamborim

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O Aeroporto

Dezembro 10, 2019

Fernando Zocca

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- Ah, é?

- Ah, é o que, seu cretino? Então você não sabia que Tupinambicas das Linhas agora tem também um baita aeroporto que pode receber aviões de até médio porte?

- Sabia, não seu...

- Pois é... Graças à astúcia do nosso mais “melhor de bão” e querido chefe político, o careca, temos do que nos orgulhar. Veja que não é qualquer aviãozinho, asa delta, planador, coisa furreca que desce ou sobe em nosso aeródromo. É tudo avião de primeira.

- Mas como foi que Jarbas, o eterno, conseguiu fazer uma obra dessas? Com certeza, não custou pouco.

- Ah, mas você não conhece o camarada, mano? Será que não sei? Ele, segundo dizem, consegue lacear fumaça de cigarro, dar nó em pingo d´água. Imagina se não conseguiria dinheiro pra fazer o que ele fez. Mas... Olha não conta pra ninguém... O comentário geral é de que o terreno onde foi feita a obra pertencia a um parente dele. E, é claro que, a terra teve de ser desapropriada.

- Ah, é? Ah, sim... Já entendi. Se o terreno valia, por exemplo, 20 mil reais, a administração dele, sob seu comando e conhecimento, pagou 31 mil. O parente do nosso querido e espertíssimo dirigente recebeu os 20 mil, mas deu recibo de 31. A diferença entre os dois valores, isto é, 11 mil o corajoso embolsou para a felicidade dos correligionários.

- Trata-se de mais um caso de superavaliação, ou seja, estimou-se um valor, para o tal terreno, acima do que é comumente comercializado naquele local.

- Mas... Espera um pouco... E o que Jarbas o magnânimo, prefeito eterno, disse pro imposto de renda sobre a origem desse dinheirinho?

- Você não sabia? Ele tem alguns parentes que criaram uma escola infantil, da qual ele consta como sócio proprietário legítimo. Toda a grana que vem das entidades públicas, de forma criminosa, encontra na contabilidade da tal escola uma justificativa quase que perfeita. No caso os 11 mil foram justificados na receita federal como renda oriunda das atividades escolares. Morou, retardado?

- Ah, é?

- É sim, seu burro. Não está vendo?

- É por isso que eu gosto do Jarbas. Ele rouba, mas faz. Se não fosse a sacanagem dele a gente ainda estaria empinando pipa aqui em Tupinambicas das Linhas.

- É triste, mas é verdade.    

Você Veio?

Outubro 31, 2019

Fernando Zocca

 

 

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Descendo a ladeira íngreme, mal conseguindo manter a própria carcaça que já se aproximava da oitava década de vida, Zé Laburka parou defronte ao barracão desocupado e percebendo a porta de aço entreaberta arriscou entrar.

- Deve ser aqui – murmurou ele ao curvar-se para passar por aquele portão.

- Quem está aí? – perguntou, com rispidez, uma voz feminina.

- Sou eu, bem – devolveu Laburka.

- Você veio, Zé?

- Vim Cristina – garantiu Laburka adentrando no salão escuro amplo e acomodando-se num dos bancos ainda vazios.

O casal Donizete Pimenta e Dani Arruela abriu bem devagar o portão de ferro, pintado com tinta marrom já bem velha, e lentamente, trocando olhares de cumplicidade iniciaram a caminhada pela calçada.

- Se você não fosse burro não teria vendido o Simca Chambord. Era velhinho, mas pelo menos a gente não andava a pé pela rua – criticou Arruela logo que sentiu as primeiras impressões da caminhada.

- E o que adianta ter um carro e não ter a gasolina pra botar nele? – defendeu-se Donizete.

Sem mais nenhuma palavra o casal trafegou pelas ruas do bairro indo parar defronte ao barracão sinistro. Abaixaram-se e entraram pela porta entreaberta.

- Quem está aí?  - quis saber o vozeirão feminino.

- Aqui quem fala é o Donizete Pimenta.

- E aqui é a Arruela. Dani Arruela.

- Você veio, Donizete?

- Vim Cristina.

- Você veio Arruela?

- Vim Cristina.

- Não reparem na ausência de luz. Sentem-se e aquietem-se – orientou o vozeirão.

Delsinho espiroqueta, com um lenço colorido na cabeça, tamancos de madeira nos pés, rebolando mais do que criança brincando com bambolê, ao chegar defronte o barracão escuro, bateu palmas e foi entrando.

- Quem está aí? – quis saber o vozeirão feminino autoritário.

- Aqui, bem, é o Delsinho. Sempre, forever, Espiroqueta pros amigos.

- Você veio Delsinho?

- Vim Cristina.

- Achegue-se e descanse o traseiro largo num dos nossos bancos.

Defronte ao barracão Luisa Fernanda, Célio Justinho, Hein Hiquedemorais, Lurdes Ton Inn, chegaram numa caminhonete Chevrolet D 20 Branca, quase nova.

Desceram, e defronte ao portão do barracão funesto, em fila indiana, começaram a entrar.

- Quem está aí? – perguntou a voz feminina grave e poderosa.

- Aqui somos a gente, querida – respondeu Ton Inn tremulamente.

- A gente quem? - Insistiu a voz com a força de uma coronel da polícia.

- Aqui é Luisa Fernanda, dona senhora.

- Você veio Luisa?

- Vim Cristina.

- Aqui é Célio Justinho, dona comandante.

- Você veio Célio?

- Vim Cristina.

- E aqui somos a gente mesmo, dona senhora comandante. Isto é, Lurdes Ton Inn e Hein Hiquedemorais.

- Você veio Lurdes?

- Vim Cristina.

- Você veio Hein Hique?

- Vim Cristina.

A vovó Bim Latem (que fora chefe de gabinete do prefeito – quase imperador – Jarbas o caquético testudo) desceu do seu Chevrolet Onix zero kilometro e, sem nenhuma dificuldade, transpôs a porta de aço daquele barracão tenebroso.

- Quem está aí? – inquiriu a voz daquele poder.

- Aqui, excelentíssima e ilustríssima senhora, com o devido respeito, data vênia, é a Bim Latem, vossa serva para sempre.

- Você veio Bim Latem?

- Vim Cristina.

- Bom, com todos aqui presentes declaro aberta a sessão e iniciados os trabalhos, passaremos a discutir os assuntos de interesse de os envolvidos. O nosso objetivo hoje é definir a estratégia que nos livre desse sujeito ruim, odiado por todos os que desejam a manutenção das coisas nesse estado em que estão: ou seja, no tempo em que queimaram a zagaia de pau, do onça, dos barquinhos de tábuas e das aprontadas feitas com as crianças ingênuas escolhidas para receberem todas as cargas de ódio contidas contra os pais desses bodezinhos trouxas – começou Cristina com o seu discurso.

- Muito bem, senta a pua! – aplaudiu a vovô Bim Latem enquanto guardava a chave do Onix na bolsa pequena que trazia a tiracolo.

- Esse camarada, que se julga muito esperto, pretende mudar os costumes dessa nossa gente tão amada, querida, ilustrada e de bem com a vida. Por que, pergunta-se, por que haveriam de hostilizar um menino em decorrência de suas constantes incursões na mata, nas proximidades da sua casa, se sabiam, com antecedência, que a inspiração para tal conduta vinha, embora inconscientemente, das histórias (lidas na cozinha da vizinha) dos Bandeirantes desbravadores dos sertões e territórios, que fariam, no futuro, partes do Brasil? Qual a razão, o sentido, da ação praticada pelo velhote asqueroso, que quando sentados ambos, o velhote, e o menino, respectivamente tio e sobrinho, numa sala, ao redor duma mesa hexagonal, cuja forma assemelhava-se aos favos das abelhas, defronte a um receptor primitivo de televisão, que ao segurar firmemente o braço esquerdo do tontinho, o chacoalhasse violentamente dizendo com toda ênfase e raiva: “você vai ficar louco!” se não fosse para, única e exclusivamente, descontar na criança indefesa, os ódios contra o pai do tal piá?

- Nossa como ela fala bonito – comentou Gelino Embrulhano que se esgueirando entre os bancos e o pessoal acomodado, acabara de chegar.

- Fecha o beiço, ô inoportuno! – esbravejou Hein Hique secando, com o dorso da mão esquerda, o filete de saliva que lhe escorria pelo canto direito da boca.

- Pois por que a tal praga, do tal tio, haveria de se concretizar se não fosse o verdadeiro causador dos dissabores daquele tiozão covarde, o pai do meninote? – continuou Cristina – sim, meus amigos e seguidores, por que cargas d’água haveriam de urdir armadilhas usando crianças menores para comprometer o menino, se não fosse por ódio contra o pai dele, hã, hã, hã?

- Arregaça o canalha! – exclamou Zé Laburka cuspindo nas palmas das mãos, esfregando-as em seguida.

- Pois olha que vou lhe dizer uma coisa – arriscou Delsinho Espiroqueta interrompendo a palestrante – esse camarada é tão chato que um dia quando, bem de manhazinha, eu lavava o rosto na pia do banheiro e tendo antes tirado a dentadura, ouvi toques insistentes na campainha da porta e, ao mesmo tempo, os clamores do telefone inclemente. Eu fiquei tão assustado, desesperado, que não sabia a quem atender primeiro. Na pressa, ao sair correndo, ao invés de devolver meus dentinhos à boca, coloquei-os no sovaco esquerdo. E depois, tendo já corrido à porta da frente e percebendo que se tratava dum trote, ao procurar pela dita cuja, não me lembrava onde a pusera. Foi o Zé Laburka, meu querido, que ao notar um volume estranho debaixo do meu braço apontou o esconderijo.

- Bom, minha gente... Continuemos – prosseguiu a Cristina - O nosso propósito é de lançar campanhas difamatórias contra o tal. Falaremos mal dele, faremos incansavelmente a sua caveira, embaçaremos os seus cotidianos, tornaremos baço, muito baço, o seu viver. Nem duvidem. Todos na prefeitura, no mercado, nas lojas, no fórum, nas escolas, nos teatros, nos bares e em todos os lugares onde as pessoas costumam frequentar saberão que esse sujeito não presta. Temos folhetos explicativos que devem ser retirados na saída. Dessa forma, depois de quase 60 minutos, dou por encerrada essa sessão.

Da platéia soaram aplausos demorados.  Na saída quando todos tomavam os seus rumos, num Galaxie 1969, passou lentamente diante deles, o doutor Carneiro.

Também conduzindo lentamente o seu Hunday HD 20, surgiu defronte o barracão, o doutor João Carcanhá Di Grillis.

Quando Cristina, a última a se retirar, entrava no seu Voyage vintage, apareceu-lhe pela frente, caminhando bem devagar, manipulando o celular, que mal podia ver por causa das lentes grossas, dos óculos de sol, usados naquela noite, o inesquecível perseguido e odiado Van Grogue.

- Te cuida neguinho. Te cuida que tua chapa está esquentando. Quando te pegarem dificilmente sairás do inferno – advertiu a palestrante.

   

Carvão

Outubro 05, 2019

Fernando Zocca

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Esperando ansiosamente, durante dias seguidos, pelo churrasco do fim de semana, Célio Justinho, logo depois que lhe nasceu a filha, buscava também, ardentemente, por um nome legal pra recém-nada.

Quando Luisa Fernanda, embalando a recém-nascida, entrou de repente, na área do quintal, onde estava Célio, que naquela manhã de domingo já acendia a churrasqueira, dizendo “tai chegou o final de semana”, Célio “capturou” a ideia: sim, sua filha se chamaria Taíssa.

Lembrando da vintena de pessoas que apareciam frequentemente na sua média residência, objetivando saborear as carnes assadas, sobre o carvão em brasa, Célio quis saber:

- Será que vem muita gente?

Luisa caminhando pelo entorno da piscina, prestando mais atenção à sucção do seio que a garota fazia, aleatoriamente respondeu:

- Ah, com certeza, os mesmos mortos de fome, pinguços e irresponsáveis de sempre, não deixarão de aparecer.

Num susto desconfortável, resultou em Célio, absorto com a ardência do carvão, o soar da campanhinha da porta frontal.

- Vai ver quem é – gritou Luisa para a velha empregada Lurdes Ton Inn que varria lentamente o chão da sala.

A funcionária aproximou-se da porta de entrada e antes mesmo de abri-la ouviu o ruído de um alarme que zunia insistentemente na vizinhança.

- Surpresa! – disseram em uníssono Dani Arruela e Donizete Pimenta Aarder logo que viram a face da empregada pela porta semiaberta.

Quando a já idosa Lurdes Ton Inn viu as duas figuras lembrou-se dos seus antieméticos.

“Minha Nossa Senhora, vai ser mais um final de semana daqueles” – pensou ela.

- E aí, gatona? Vai ter maminha, chuleta e coxão duro hoje? – quis saber Pimenta entrando porta adentro.   

- O Célio está lá no fundo do quintal queimando o carvão – respondeu a Ton Inn fechando a porta depois que Arruela entrou.

- E aí, seu Célio? Tem carne boa pra fome nossa, de míseros mulambos? – indagou esfuziante o Pimenta Aarder.

- Se assentem – respondeu Célio apontando cadeiras ao redor das mesas pequenas dispostas ao lado da piscina.

Antes mesmo que pudessem iniciar uma conversação a campanhinha soou novamente.

E lá se foi Lurdes Ton Inn, balançando a pança, ver quem era. A velha senhora não esboçou surpresa quando, de esguelha, viu que eram Zé Laburka e Delsinho Espiroqueta. De mãos dadas eles esperavam a abertura completa da porta.

- A senhora não repare que estou com uma dor terrível no nervo “asiatico”, aqui no lombo. Por isso uso essa espécie de colete – informou Laburka adentrando na sala. Ele puxava pela mão esquerda Delsinho que, disfarçadamente tentava assentar os cabelos crespos.

- Ai, não imagino que vou comer carne de novo. Ai que glória! – exclamava, aos sussurros, o Delsinho enquanto caminhava célere em direção ao quintal.

- Não gostaria, e nem vou dizer, é claro, que chegou quem não precisava vir – murmurou Célio quando viu os dois adentrando na área da piscina.

A dupla chegou-se perto do anfitrião que com um espeto açulava o carvão em brasa. Laburka enlaçou com seu braço direito o pescoço de Delsinho.

- Ai, Zé... Pelo amor... Esse sovaco peludo... Faz o favor... – queixou-se Espiroqueta esquivando-se.

- Mas me diga lá seu Zé: é verdade que o fim do mundo está acabando? - brincou Célio ao mesmo tempo em que, com um gomo inteiro de linguiça de porco, preso na ponta do espeto, oferecia aos visitantes.

Luiza Fernanda, que embalava a neném, aproximou-se do pessoal reunido e que já degustava as carnes assadas perguntou:

- Dani, é verdade que seu marido, esse Donizete Pimenta fez um curso de flanelinha espiritual?

- É verdade, bem – respondeu Arruela – é um curso à distância que objetiva o controle da mente. As abelhas do meu quarteirão tentam, durante, horas seguidas, dias, semanas e meses, controlar o ziriguidum do entorno. Mas, na maioria das vezes, os bombeiros aparecem e levam os enxames pra longe.

- Olha pelo que eu sei esses insetos não têm sossego, não descansam nunca, estão sempre alerta, por terem muito medo, receio de perder algo, de serem atacados ou prejudicados por alguém. Os psicólogos lá do lar dos velhinhos, onde costumo passar meus finais de semana, e férias, dizem que essa inquietação é muito própria de quem faz as coisas erradas, tipo lograr, furtar ou roubar as pessoas. Eu conheci um moço que antes de se casar começou a construir uma casa no quintal da mulher que seria a sua sogra. Só que apareceu o fiscal da prefeitura e autuou o jovem dizendo que aquele tipo de construção estava proibido. Entretanto o sujeito, diante dos olhares, da expectativa, da futura esposa e dos sogros, resolveu continuar a construção, mesmo sabendo que estava tudo errado e que teria um prejuízo material enorme e uma vergonha insuportável, se a prefeitura mandasse demolir tudo depois que a habitação estivesse pronta. O fato é que a situação de estresse foi tão intensa que o sujeito, mesmo depois de casado e morando naquele imóvel ilegal, desenvolveu um estado de alerta, de vigilância eterna tais, que moldou o modo de ser das demais pessoas e dos filhos que nasceram daquela união. Então a desordem, a litigância, o desassossego, teriam origem na própria inquietação do fundador daquela família – discursou abraçada com sua vassoura e com a devida ênfase a experiente Lurdes Ton Inn sob os olhares embasbacados dos convivas.

As horas passaram céleres, vieram o meio-dia, as 13 horas, as 15, e as 16:30; quando o Flamengo e o Grêmio de Porto Alegre entraram em campo, no Maracanã, naquela bela tarde de domingo, tudo  cessou repentinamente.   

Atendimento pós-venda

Abril 02, 2019

Fernando Zocca

 

 

Comprei uma moto (sim, meu amigo, pobre também pode ter moto) Honda Start 160, na revendedora Beni Motos situada em Piracicaba, na Av. Armando de Salles Oliveira.

Depois que me entregaram o veículo, o atendimento pós-venda, passou a ser feito à Rua Benjamim Constant, 1752.

A revisão da entrega aconteceu no dia 15 de setembro de 2017. A primeira revisão – manutenção periódica - após a entrega do veiculo, deu-se no dia 05 de março de 2018; a segunda revisão no dia 15 de setembro de 2018; a terceira revisão aconteceria depois dos 18 meses a contar da data da compra.

No manual do proprietário há explicações do procedimento a ser seguido pelos revendedores. E deste consta que a troca de óleo e a mão de obra serão gratuitas a partir da terceira revisão até a sétima.

Mas não é bem assim que as coisas funcionam. Daquelas teorias todas do manual, a prática, meu amigo, é bom diferente.

Em contato telefônico com funcionário da Beni Motos (Rua Benjamim Constant, 1752), nesta data (29 de março de 2019), fui informado que os serviços da tal revisão (mão de obra) e troca de óleo, não seriam gratuitos e que pelos cálculos da empresa, o custo seria de R$ 501,00 (quinhentos e um reais).

Das duas uma: ou o manual do proprietário não contém verdades, iludindo o consumidor, ou a empresa Beni Motos cobra injusta e ilegalmente por serviços que deveria efetuar gratuitamente.

Revisão, ao que se sabe é rever o que já foi visto. Mas a minha moto não foi revisada, depois da segunda, que ocorreu em 15 de setembro de 2018.

Segundo a conversa do funcionário que me atendeu hoje pela manhã (29 de março de 2019) ao telefone, pela troca de vela, regulagem das válvulas e desmontagem do motor o valor cobrado seria de R$501,00.

O interessante, que chama a atenção do consumidor é o sujeito saber tudo o que tem de trocar, e todo o serviço a fazer no veículo, ainda em garantia, sem tê-lo visto nem de longe. 

Está certo que a crise está brava. Mas não vamos exagerar não é?

Aconselhamos A Honda do Brasil, instalada na Amazônia, que proceda a revisão do manual do proprietário (que é entregue ao consumidor no ato da compra) e que também treine melhor os funcionários responsáveis pelas vendas dos seus produtos aqui no Brasil.

Folie à Deux

Fevereiro 25, 2019

Fernando Zocca

 

 

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Matraqueando mais do que repique de tamborim, Van de Oliveira Grogue entrou no bar do Bafão, naquela noite de domingo, e com o indicador da mão esquerda ereto, apontando pra cima, foi logo pedindo:

- Seu Bafão garanta já a sua noite de insônia e me conceda o mais precioso combustível sem o qual o nosso particular show da folie à deux não prospera.

Bafão que já estava nervoso com a papelada das contas mensais que se acumulavam dentro de uma caixa, num dos cantos do balcão, esfregou nervosamente o guardanapo no tampo da mesa em que o pinguço se sentaria e respondeu:

- Vossa pessoa veio pra beber ou pra conversar?

- Delícia de ambiente, todo bem decorado. O senhor caprichou hein bebê? Esta tudo muito bem. Só o seu sotaque está um tanto quanto que destoante.

- Que mané sotaque, meu? Sempre falei desse jeito e ninguém, até aqui, pôs reparo. Não é a partir de agora que isso será um problema – respondeu Bafão sem se preocupar com o fato de que poderia desagradar o freguês.

Saindo em direção ao freezer onde estocava a cerveja, Bafão percebeu que seu nervosismo, naquele momento, poderia embaraçar o relacionamento comerciante-freguesia prejudicando-o.

Mais pessoas chegavam conversando; paravam defronte ao balcão e assim que percebiam a atenção do proprietário do boteco, faziam os seus pedidos. Alguns se acomodavam às mesas, outros permaneciam em pé dispostos à bebericação.

Grogue murmurou, depois de obter seu litrão, colocado na mesa por um prestativo, mas estressado sofredor de halitose, também conhecido como Bafão:

- Tem certos momentos na vida que a pessoa passa a sofrer de ridiculite aguda. Essa inflamação no senso de ridículo demonstrando aquele estado de “sem noção”.

- Não me enche o saco Grogue.

O zunzunzum no ambiente estava denso; o ruído de copos e garrafas entremeava o som das vozes dos que conversavam. De repente, um cachorro preto, peludo, também conhecido como “o doidinho ululante da vizinhança” invadiu o boteco latindo a torto e a direito.

Correndo atrás do cão Delsinho Espiroqueta esgoelava o nome do bicho:

- Vem Magna, vem! Ai, minha Nossa Senhora!

Apesar do embaraço provocado pelos sapatos, bem maiores do que os pés do aflito perseguidor, ele ainda conseguiu alcançar o impulsivo cachorro, pondo-o no colo.

Zé Laburka que a tudo observava da sua janela estrategicamente semi-aberta numa parede lateral da sua casa de esquina murmurava com voz grave:

- Eu falei pra ele não usar minhas roupas e nem meus sapatos. Olha que coisa feia. Sapatos, calça e camisa bem maiores do que ele. Que vexame.

Sem conseguir dominar o cão latidor Delsinho soltou-o no meio da rua. Pra agonia dos transeuntes “o doidinho da vizinhança” viu-se, mais uma vez livre, bem leve e solto, pra atormentar as pessoas.    

   

Pessoas e Coisas

Janeiro 30, 2019

Fernando Zocca

 

 

 

O desconhecimento dos símbolos gráficos impede as pessoas de terem mais liberdade nas suas escolhas. Quem não entende as mensagens escritas depende dos outros para a orientação das próprias ações.

E se houver a combinação dessa espécie de impossibilidade do entendimento com o uso frequente e imoderado do álcool, ou drogas ilícitas, não seria equivocado afirmar que o sujeito, ou os sujeitos, nessas condições, seriam focos infecciosos a serviço da desagregação social.

Seria bem ingênuo acreditar que esse tipo de situação não seja útil, de muitas formas, para alguns.

Qual político não se interessaria em manter esse quadro socialmente nocivo, se, de alguma forma, não viesse a lhe trazer grandes lucros e vantagens?

Muitos creem que o que hoje conhecemos como bullying seja a forma bem antiga do que os sociólogos denominaram “controle social difuso”.

Ora, como manter-se no poder por 20, 30 anos, ou mais, numa democracia, se não houver o conhecimento e o domínio dos motores daqueles que praticam as crueldades opressivas do bullying?

Então a ignorância, o analfabetismo, o alcoolismo, o uso abusivo das drogas interessa, e muito, aos que fazem do exercício dos papéis dos ocupantes dos cargos públicos eletivos transitórios uma profissão vitalícia rendosíssima.

Nessas condições não seria o mérito o verdadeiro norteador dos que escolhem as pessoas para a ocupação dos cargos importantes para a administração da cidade.

Basta a pessoa ter certa congruência com os ideais dos eleitos para que, mesmo aquela apresentando muitos déficits estruturais, ter garantida a ocupação do posto.

Um sinal importantíssimo de que as coisas não estão bem, numa sociedade, é a evitação da comunicação entre as pessoas. Então se percebe que muitos se negam a conversar com alguém pelo temor da ocorrência da opressão social, do que hoje conhecemos como bullying, ou seja, da velha zoação.

Isso é consequência das más administrações onde os que estão no poder pensam somente nos benefícios para si e aos seus, deixando a educação, o controle dos vícios, e o adestramento dos geneticamente menos agraciados em planos de menor destaque.

Numa cidade existem muito mais razões para um bom desempenho político do que somente a apresentação de obras viárias.

O pensamento mágico

Dezembro 08, 2018

Fernando Zocca

 

 

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Martinho da Vila já dizia numa de suas canções que tinha passado no vestibular, mas que a faculdade era particular. Em outras palavras, e melhor explicando: se ela pertencia a um grupo econômico, vivia das mensalidades pagas por seus alunos, quem não tivesse o cascalho não poderia frequentá-la.

Mesmo com as generosas ofertas de bolsas de estudo, a maioria das pessoas que mora no Brasil não teria, hoje em dia, suficiência financeira para encarar os anos de estudo.

Juntamente com todas as populações da América do Sul, a brasileira, tem na sua maior composição, o nível de escolaridade bem abaixo do culo de cobra.

E, meu amigo, estaria redondamente enganado, quem afirmasse que esse fenômeno, não atravancaria o deslinde, o deslizar do progresso da nação.

País subdesenvolvido tem na equação que o forma muita corrupção impune, professores mal preparados, diretores de escola ocupando os tais cargos diretivos mais por obséquio político do que propriamente por méritos próprios, isto é, notórios saberes pedagógicos e muito, mas muito, aproveitamento da ingenuidade alheia.

A doideira alicerçada nas deficiências genéticas, fortalecida no analfabetismo, somada ao uso desembestado de álcool e drogas atrasa tanto o progresso dos bairros, cidades, estados e países, que não deveria mesmo causar espanto, o estágio obtido pelas populações dos países que já venceram estes momentos nebulosos da vida nacional.

O nível do conforto do viver dos cidadãos dos países imaturos chega a tal ponto tão negativo, péssimo, que não poderia deixar de lembrar os mais infelizes, assolados pela miséria famélica extrema.

Um país miserável se forma com muita esperteza, roubalheira impune e, inegavelmente, com a mais variada estupidez recheada por crendices supersticiosas.  

Oh, dó!

Novembro 10, 2018

Fernando Zocca

 

 

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Dina Mitt entrou no bar do Bafão naquela manhã de segunda-feira e foi logo avisando a todos os presentes:

- Sobrancelha não é bigode.

O embasbacamento geral fez com que quem levava o copo à boca parasse na subida do braço; quem pagava a conta estancasse sacando o dinheiro do bolso e quem fumava paralisasse com o pito nos beiços.

Dina continuou:

- Eu amava o meu barrigudinho. Ele era malvado, arfava feito uma mula velha na subida; tinha um bigodinho esquisitíssimo e gostava de bater na mamãe. O cachorro não era besta de cavoucar minhoca em barro duro, mas vivia com a varinha na mão. O olho esquerdo era afetado. Uma ventania tinha lançado muita poeira na vista tendo-o deixado quase cego. Era nervosíssimo. Um problema neurológico fazia com que seus olhos dançassem de um lado pro outro, assim de bobeira, sem que ele quisesse. Os doutores disseram que era nistagmo, coisa da cabeça, tipo carburador sujo. Mas era fofinho. Eu gostava do gorducho. A perninha direita era mais fina do que a esquerda. Minha mãe quase apanhou quando sugeriu a ele que a amputasse e colocasse no lugar uma prótese. Com certeza ele teria mais segurança – dizia ela - pra pisar no breque do fusca velho. Mas papai não queria saber de conversa. Ele pensou em montar um armazém de secos e molhados no bairro. Entretanto achava que minha mamãe não tinha jeito pra coisa. Ele era macho, muito macho mesmo. E pra provar isso, apagou um charuto no braço esquerdo. Ele olhava pra ferida e, mostrando pra visita sorria como se dissesse “faça isso, seu vagabundo, se for homem”. Meu baixote barrigulino era importante. O pai dele, meu avô, trabalhara, apesar de analfabeto, numa filial governamental interiorana e ficava mais em casa do que no trabalho. Alguns vizinhos enxeridos diziam que vovô só saia de casa no dia do pagamento. Era muito difícil ver papai rindo ou demonstrando felicidade. Ele quase não falava. Vivia bravo.  Uma vez ele cismou que queria criar galinhas. E não é que o fofutcho disse que se não conseguisse amealhar umas 1.000 penosas ele não seria digno do emprego na empresa que o sustentava? Aos que ele considerava nervosos sempre recomendava Maracugina. Vocês acreditam que ele comprou até um bote. Sabe aquelas canoas de tábuas que fabricavam há alguns anos passados aqui na cidade? Então... Ele tinha um daqueles, que ficava ancorado na margem do rio Tupinambicas. Manja aquele riozão? Então... Vocês imaginam que ele queria falar inglês. Eu sabia que ele não conseguiria, por isso arrumei um namorado que lia, escrevia e falava no idioma do tio William Shakespeare. Manjam o Shake...? Meu pai ficava furioso quando me pegava namorando o tal, altas horas, na varanda de casa, debaixo dos vasos de samambaia... Mas ele era também muito romântico. Uma vez ele fez um verso pra mamãe Rosalina. Era assim: “batatinha quando nasce esparrama pelo chão, Rosalina quando dorme, ronca muito no colchão”. Não é uma gracinha? Não merecia um selinho? 

Dina Mitt só parou de falar quando um caminhão tanque imenso, perdendo os freios, invadiu a calçada, na esquina vizinha, derrubando toda a parte frontal dum bazar especializado em objetos de plástico.

Do corre-corre subsequente destacou-se a exclamação do palmeirense arraigado que passava pelo trecho:

- Oh, dó!  

 

A goiabeira

Julho 19, 2018

Fernando Zocca

 

 

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Antes de comprar a moto eu ia sempre a pé ao Parque do Piracicamirim onde corria 5 km por dia. O percurso, de mais ou menos 20 minutos, tinha a vantagem de proporcionar o aumento da temperatura do corpo, deixando-o em condições propícias ao exercício mais extenuante.

Eu não tinha um horário específico definido. Às vezes saia antes do nascer do sol, outras depois das 10 da manhã, e não foram raras as ocasiões em que trotei após as sete da noite.

Uma vez, quando caminhava pela Av. Alberto Vollet Sachs, em direção ao Parque, fui abordado por um camarada que estudou comigo no Jerônimo Gallo, em meados dos anos de 1960.

- Eh, Zocca hein? Você agora é “sex” – me disse um vozeirão, às minhas costas, depois que atravessei a Rua João Botene.

Ao olhar pra trás reconheci a figura: era o Kidney, um dos colegas que, sentado numa das carteiras, no meio da sala, não deixava de admirar abestalhado, embasbacadíssimo, em voz alta, a belezura da professora de matemática.

- Sex, sim. Sexagenário – completei depois de cumprimentar o camarada que há mais 50 anos não via.

Passada a euforia inicial e já caminhando juntos, a conversação fluiu em torno da política de Brasília, de Piracicaba, da ladroeira crônica debilitante; falamos sobre o futebol e se o Brasil teria alguma chance na copa do mundo que aconteceria em Moscou.

Caminhamos até o portão do Parque e lá o reaparecido foi falando:

- Você sabe que eu aproveito esse fato da lei proporcionar passagem gratuita nos ônibus intermunicipais para as pessoas idosas.   Num domingo de manhã me deu na cachola de viajar pra São Paulo, na faixa.

Fui até a rodoviária e, com uma sorte tremenda, consegui a passagem. Depois do embarque sentei-me na poltrona reservada aos velhotes caronas. Achei que viajaria confortavelmente. Mas passados uns 10 ou 15 minutos, antes do início da viajem, ao meu lado, sentou-se uma senhora bem gorda. Balofa mesmo.

Ela arfava, suava e se abanava nervosamente. Senti que eu não ficaria por muito tempo ali. Depois que o ônibus iniciou o trajeto, olhei pras outras poltronas de trás. Não estavam todas ocupadas. Pensei que a empresa não se importaria se eu me deslocasse até uma delas, ali pelas imediações do meio do veículo.

Sentei-me. E qual não foi a minha surpresa quando, menos esperava, acomodou-se ao meu lado uma moça bem bonitinha.

Aos sacolejos da condução a jovenzinha começou a falar comigo. Eu estranhei muito. Primeiro porque havia outras poltronas desocupadas ao longo do corredor. Segundo pelo fato de não ser nada comum moças iniciarem conversação com pessoas desconhecidas.

A mocinha principiou a contar a sua história:

Meu pai era um sujeito muito rude. Um bronco. Não sabia ler ou escrever. Mas nem por isso deixou de se empregar na empresa de estrada de ferro. Ele era o responsável por alimentar a caldeira. Isto é, naquele tempo, os trens eram movidos a vapor. E pra ter o tal do vapor, era necessário aquecer a água. O aquecimento acontecia com as chamas da queima das toras de eucalipto.

Alem de ser bem burro, meu pai, barrigudíssimo, era cachaceiro. Não saia dos bares da redondeza donde a gente morava. Nos botecos ele conheceu um sujeito manquitola que catava papelão, jornais e revistas velhos, garrafas vazias, e um mundão de outras coisas, que depois vendia pros ferros-velhos.

Numa mudança de vida esse colega do meu pai, ao invés de vender as coisas catadas, passou a expor principalmente as revistas e livros, num cômodo da sua casa.

Bom, pra encurtar a conversa, o velhote deu de presente pro meu pai uns livrinhos que falavam sobre os Bandeirantes e outras historiazinhas. Lembra daqueles caras que desbravaram os sertões do Brasil no século XVI, tipo Borba Gato, Anhanguera e outros? Então...

A gente tinha um vizinho bem lazarento que, usando um pedacinho de galho da mangueira, pra raspar as bordas do buraco do muro, que separava os dois quintais, aumentou a quantidade de pó de reboco ali existente.

Eu, minhas irmãs e irmão, quando estávamos no quintal, ouvimos o moleque chamar a gente. A mais bestinha, botou o olho no furo do muro. Pronto. Foi o suficiente pro morfético assoprar aquela poeira toda no olho esquerdo dela.

Esse foi o primeiro contato com aquele vizinho. Depois da correria, do estardalhaço do acontecido, meu pai prometeu se vingar do “mardito”.

Bom, passado muito tempo, numa tarde, quando as lembranças da ocorrência pareciam ter se esmaecido convidamos o menino pra vir à nossa casa. A gente estava na cozinha. Minha mãe trabalhava na faxina dos quartos. Sentados à mesa, colocamos os livrinhos e as revistinhas, (ganhos por meu pai, do pinguço perneta), na frente do “xarope”, que dizia saber ler.

E não é que o sujeitinho leu as historinhas pra gente, impressionando principalmente a mim, a mais nova, e provocando um ciúme doentio na mais velha?

Bom passado um tempão, quando eu e minha irmã, apanhávamos goiaba, no alto da goiabeira do quintal, sofri uma queda, batendo o queixo; quase decepei a língua que ficou milagrosamente presa, à cavidade oral, por um fio. Esse fato, mais outros, foram decisivos pra que saíssemos daquela casa. Mudamos para uma vila. Mas o tal do vizinho, um encosto em nossas vidas, vinha muito ao nosso lar.

Meu pai tinha o firme propósito de vingar-se daquele chato. Muita coisa contribuiu para a felicidade paterna. O tal ficou doente.

Mas também não tivemos muita sorte. Logo em seguida meus pais se separaram. Eu estava noiva de um comerciante, dono dum posto de gasolina. Infelizmente não nos casamos; morri aos 19 anos, num acidente de carro numa terça-feira de carnaval.

- Eu paro por aqui, seu Kidney. Hoje acho que a peruca ficou bem na minha cabeça depois que me puseram naquele caixão branco. Que o senhor tenha uma boa viagem até São Paulo. Estou muito bem. Se puder dê lembranças pro meu pessoal.

Kidney parou de falar. Olhávamos um pro outro ali na entrada do Parque.

 

Eu já me sentia bastante cansado de tanta conversa. Mas Kidney afirmando estar com o peso bem abaixo do aconselhado, nas tabelas dos especialistas, antes mesmo que eu o convidasse a entrar, se despediu com um sorriso bonito e acenos inesquecíveis.

 

 

 

O penteado

Novembro 29, 2017

Fernando Zocca

 

 

Van Grogue entrou cambaleante ao bar do Maçarico, naquela tarde do feriado e emitindo um arroto estrondoso foi logo dizendo:

- Amarrotaram a minha paciência. Se não é na entrada é logo na saída que esses periquitos esquisitos, estranhíssimos, deixam suas danadezas.

- A rodada nem começou e já está todo nervoso Grogue? O que é isso companheiro? – perguntou o Zé Cílio Demorais que, sentado numa banqueta, postada no canto da entrada do boteco, deglutia sua segunda cerveja.

- Ocê não sabe da novidade Zé! – exclamou o Fuinho Bigodudo – falaram que Grogue comprou uma moto!

- É verdade Grogue? Como assim? Você é analfabeto, não pode ter habilitação. Como conseguiu isso? – quis saber a Luísa Fernanda que, de braços dados com seu marido Célio Justinho, ingressava no ambiente em busca do seu terceiro maço de cigarros do dia.

- Eu já tinha a moto. Mas ela ficava guardada no final daquele corredor frontal da minha casa. De vez em quando, abro o portão de correr e saio com ela. É bonitinha.

- A turma comenta que você dá seta pra entrar à esquerda, mas vira à direita? O que é isso? – Célio Justinho mostrava seriedade.

- Essa negada é mexeriqueira. É um bando de desocupados mamadores nas tetas do INSS. Como não têm o que fazer ficam zoando comigo que sou o “mais melhor” de bom aqui do pedaço – respondeu Grogue. E depois, virando-se para o Maçarico emendou - Seu garçom faz o favor de me servir o meu litrão, por gentileza.

Maçarico que usava quantidades enormes de laquê, pra segurar os penteados esdrúxulos, assentando as sobrancelhas com a base do polegar direito, abaixou-se, abriu o freezer, tirando de lá a cerveja geladíssima.

- Se beber, não pilote, hein Grogue, safado! – exclamou o dono do bar ao servir o cachaceiro de um metro e oitenta e dois centímetros de altura.

- Você acha que eu sou besta? – perguntou Grogue.

- A gente acha que é sim – responderam em uníssono os presentes.

Enquanto conversavam bebericando, entrou a vovó Bim Latem, que fora chefe de gabinete, quando Jarbas o caquetíssimo energúmeno, era o prefeito da cidade.  Ela zunia igual àqueles teco-tecos velhos do interior, pilotados por gente que, na falta do que fazer sobrevoava, por horas e horas seguidas, determinadas regiões da cidade, estressando as vacas leiteiras da vizinhança.

- Que zumbido é esse vovó? – indagou Grogue.

- Com esse escarcéu nem galinha bota ovo e cabra dá leite. O que é isso antiga e respeitosa senhora? – aderiu Zé Cílio à causa grogueana.

- Pelo que vejo vocês estão tremendamente amargos nesta tarde – respondeu a velhota que, também ostentando um penteado exótico, mordiscava uvas passa.

- O que vai ser hoje, venerável neguinha velha? – perguntou Maçarico.

- O de sempre, meu amoreco – respondeu a sisuda – Em dia de decisão de campeonato não se joga fora conversa fiada. Falsidade tem limite. - Olhando demoradamente de esguelha para o Van Grogue ela perguntou:

- Por que não comprou antes a moto?

- Porque não tem porta, airbag e nem cinto de segurança - respondeu ele com ironia.

Depois de pegar o seu litro de cerveja a poderosa vovó Bim Latem, debaixo daquele seu penteado, que mais parecia a mota da árvore fina de beira de calçada saiu dizendo:

- Ate o aro do arroto amargo.

Sem entender bulhufas do que quis dizer, aquela respeitável matrona, o pessoal voltou à incansável rotina da bebericação.  

 

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